Ela, leitora e amiga, contou-me o que aconteceu. Disse que encontrou o ele dela. Era uma festa. Que o coração, as luzes e a música pararam. Disse mais. Que ele estava acompanhado. Que as luzes encadearam, a musica mudou de rotação e o coração partiu. Que ele a cumprimentou sem jeito. E foi aí que ela a viu. A outra. A ela do momento.
Fiquei com dó e o meu coração partiu junto. Quem nunca passou por isso? Eu já. E sei que é ruim. Peguei a mão dela e perguntei: você estava linda e gloriosa? Ela enxugou lagriminhas e respondeu: estava, mas e daí!? E daí que nessas horas, você tem obrigação de estar linda e gloriosa. Do contrário, volta para casa! Ela riu, sem muita graça e muito crer, e respondeu que deu vontade. De ir embora. Por isso correu até o banheiro, mãos geladas grudadas com as da amiga, para decidir a vida: fico ou vou embora? A amiga respondeu: você não precisa passar por isso, mas faça o que seu coração mandar e vamos pegar uma cerveja.
Pegou a cerveja e optou ficar. Descobriu mais. Que uma outra amiga, era amiga dos amigos dele. Do ele dela. E que, de repente, estavam todos lá, juntos: ela, a cerveja, a amiga, a outra amiga, os amigos em comum, ele e a ela do momento. A amiga puxou-a pelo braço e rumaram para o outro lado da festa. A trupe seguiu junto. Gente, quantos anos essas pessoas tinham? Eu vivi isso aos... 18? A nossa idade, respondeu a minha amiga. Suspirei. Entendo... É por essas e por outras que na próxima encarnação, quando eu crescer, quero ser só gente grande. Nada a mais, nem a menos, de preferência. Ela concordou. E continuou. Disse que estava a um ponto de cutucar o primeiro moço com cara de facinho, e implorar para que ele desse em cima dela. Dei risada, e disse: já fiz isso! Mas aí, a santa amiga, muito mais esperta, trouxe de presente um moço amigo e interessante, desses que não passam despercebido, e que já chegou sabendo do papel que precisava desempenhar. Quem é o cara? Perguntou o moço. Aquele ali. Indicou minha amiga. E começaram a dançar juntinhos, fazendo caras e bocas, conversando no ouvido e dando gargalhadas. Ela disse que ele dizia: ele não para de olhar! E o teatrinho seguiu até que o ele dela foi embora, levando a ela do momento a tira colo, e ela dispensou o moço: obrigada! Não foi nada, disponha! Piscou o olhinho e saiu.
Virou para a amiga, pegaram mais uma cerveja, brindaram a vida e quando estavam se preparando para voltar para casa, sentiu o celular vibrar na bolsa. Uma mensagem!?, perguntei nervosa! Sim..., respondeu ela. De quem!? Do meu ele... Falando o que!? Pedindo desculpas... Desculpas do que!? Foi o que perguntei... E aí!? Ele voltou, e fomos embora juntos. Final feliz!? Só por um momento. Mas não resistiu à manhã seguinte... Por que!? Porque ele disse que estava saindo com a menina. Saindo!? Do mesmo jeito que ele antes saia comigo. Ele disse isso!? Não, mas essa parte eu concluí. Mas que olhou para mim e deu vontade de ficar comigo. Disse que não podia me falar nada além disso. Nenhuma grande paixão, nenhum amor, nada. Só atração. Basicamente. E você!? Fiquei péssima. Por descobrir que não dava conta de tudo aquilo. Por me dar conta que gostava dele. Que sentia ciúmes. Que não queria que ele estivesse com outra. Muito menos, saindo! Que se fosse para ele sair, que então saísse comigo! Afinal, o que adiantava ele estar com outra e ter vontade de ficar comigo!? Mais lagriminhas. Ofereci um kleenex amassado, perdido na confusão da minha bolsa. Obrigada, agradeceu a minha amiga. Mas, por que então você ficou com ele?, perguntei. Porque eu queria. Muito. Só que, ao mesmo tempo, queria também ter resistido. Mas não deu! Tinham saudades, tinham muitas vontades... Eu entendo..., disse para ela. Acontece!, confortei-a. Eu sei..., concordou. Não se culpe!, pedi. Estou tentando... Será que me expus muito?, perguntou. Você foi sincera, respondi. Tem gente que acha que não devemos ser sinceras, rebateu. Eu sei, as vezes também tenho essa dúvida. Dizem que sinceridade é coisa de gente fraca, complementei. Também já ouvi isso, disse ela. Mas, ponderei, se fosse assim, apenas os dissimulados seriam fortes. É verdade, continuou ela. E não posso concordar com isso, concluí. Também não, concordou ela. Talvez, prossegui, dê para conciliar sinceridade com fortaleza. Como?, perguntou. Bancando o que a gente sente. Assumindo quando não damos conta. Respeitando os nossos limites, para não nos machucarmos. Mas eu passei do meu limite, lamentou ela. Mas você só conheceu ele, o seu limite, agora! As vezes, a gente tem que se testar, tem que descobrir até onde pode ir, mesmo que seja para nunca mais voltar naquele lugar.
Amiga querida, esse aqui é para você! Tenho certeza que bancará o seu limite. E digo mais, só os olímpicos têm coragem de rasgar o coração, do jeito que você rasgou e permanecer inteiros. Não sofra! Por que você sabe que passa. E não se culpe! Saiba que sempre poderá contar comigo. Kryx
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