Voar para casa sem grandes planos, além da idéia fixa de tomar a maior quantidade possível de sol. Chegar em casa e ter sempre a mesma sensação: úmida e quente e extremamente iluminada. Na minha cidade, já é verão, aliás, nunca deixou de ser.
Além do sol, o plano era deixar a vida correr solta, em dias tranqüilos e lindos, e lindos e tranqüilos, quase como nas férias da infância, quase sempre passadas na praia logo ali da frente.
Um feriado montado com uma única intenção: energizar!, porque o lugar de onde venho tem uma energia só minha, que me inspira, preenche e prepara para todo o resto, todos os outros dias, seja lá onde tenha escolhido passá-los.
Para receber toda essa energia, é preciso uma avó, amada e quituteira, que abarrotou a geladeira com absolutamente todos os sabores que me satisfazem. Cada prato, cada comidinha, cada frutinha apresentada é uma declaração inequívoca de amor. Um amor que alimenta, nutre e põe qualquer um de pé, com todas as vitaminas e proteínas que a alma e o corpo necessitam. Para qualquer coisa.
É preciso também tardes de absoluto far niente, lendo abobrinhas e jogando conversa fora, largada no sofá da sala, até o vento me convencer que o melhor é dormir, enquanto, lá fora, o sol se põe num céu de um lilás nostálgico, já com saudades do dia invariavelmente lindo que acabou de acabar. Vento que infiltra sonhos e espanta pesadelos, até misturar fantasia e realidade e me fazer acordar, com a cabeça leve e os pensamentos em ordem.
É preciso por o pés na areia da praia ali da frente, deixar o mar lamber meus tornozelos, catar conchinhas e escolher, precisamente, qual o melhor pedaço para entrar e mergulhar, sem correr o risco de pisar em pedras, cair em desníveis ou ser pega por alguma correnteza. Um mar sem mistérios. Amigo de infância. Antigo conhecido. Com ele, aprendi a respeitar mares outros, desconhecidos, observar sempre, e muito, antes de entrar.
É preciso, ainda, plantar-se na frente desse mar, deixar os pés afundarem no fundo dessa areia, até criar raízes e balançar, no mesmo ritmo dos longos (e adorados) coqueiros, pra lá e pra cá. E pensar coisas que só se pensa quando se olha para o mar. Ou não pensar nada e se deixar levar, como parte do cenário, totalmente hipnotizada.
É preciso, muito, de uma mãe que sabe passar amor com um simples abraço, que conta segredos e ensina fórmulas secretas. Para a vida. Mãe do riso fácil, rainha das abobrinhas, com o seu mundinho particular, tão frágil e tão forte. Única capaz de me por no colo e fazer o mundo parar. O mundo para com ela. Não tenho a menor dúvida.
Sem esquecer que é preciso amigas, que me conheçam desde o tempo em que eu me sentia um ET, porque é preciso renovar laços, dar risadas, atualizar a vida, beber cerveja, comer agulha frita e casquinho de caranguejo.
Para finalizar, é preciso poder andar pela casa de camiseta e calcinha; é preciso não ser preciso secar o cabelo; e comer ensopado de sururu e bolo de chocolate sempre que tiver vontade. É preciso encontrar os primos e ver fotos do último aniversário e do último casamento; é preciso tomar água de coco e, depois de todo o sol possível de se tomar, é preciso fazer a mala e seguir, sem lágrimas, chorinhos ou saudades, porque o lugar de onde venho levo sempre comigo e posso sempre voltar.
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