Não gosto de começar a escrever pelo título, mas foi o que acabou de acontecer. É que depois da estória que escutei na copinha, não paro de pensar em como isso é simpático: sonhar que algo aconteça e usar o vestido adequado ao sonho. Sendo o vestido parte do sonho. E o que faz exatamente esse e não aquele ser o vestido sonhado?
Desde sempre, ocasiões especiais sempre significaram vestidos especiais, e era por isso que adorava quando acontecia algo que fazia a minha mãe tirar do armário o vestido de faixa azul. Eu tinha uns 4 anos e, até onde lembro, foi o primeiro vestido que fez com o que eu me sentisse bem ou, sendo bem honesta, fez com o que eu me sentisse bonita e de acordo. Era um tomara-que-caia de laise branco, arrematado na cintura pela tal fita de cetim de seda azul, que fechava com um laço nas minhas pequenas costas. Era usado de preferência em casamentos e, dentro dele, eu me comportava bem, sentava como mocinha e me achava mais incrível do que qualquer dama de honra porque, com ele, tinha a sensação de ter acabado de sair daquele quadro com “as meninas”, que a minha mãe tanto gostava.
Sonho. Desejo. Sensação. Referência. Quer tenha ou não essa noção, é assim que o seu cérebro funciona na hora de escolher um vestido, ou melhor, o vestido. É assim que projetamos quem queremos ser com aquela escolha. Que papel pretendemos desempenhar. E, invariavelmente, para que essa escolha seja feita, sempre nos voltamos a alguma coisa ou a alguém. Umas mais inspiradas, outras menos. Umas mais conscientes, outras nem tanto. Acontece com todas nós. Quer você queira ou não. Mesmo que a sua ideia seja “não dou a mínima”, o vestido escolhido terá essa cara de quem não dá a mínima. Quanto a isso acho que ninguém tem dúvida!
E essa coisa de referência é tão séria e influencia tanto o vestir, que cito como exemplo a mulherada da minha própria família:
M., 3 anos – fazendo a linha Princesas Disney, M. só usa vestido que roda e ai de quem lhe oferecer algo diferente.
I., 21 anos – como quase todo mundo nessa idade, I. quer ser inconfundivelmente sexy, não usando absolutamente nada que chegue perto da linha dos joelhos.
R., 33 anos – passada a obviedade dos 20, R. disfarça o sexy com elegância e prefere clássicos a modinhas.
H., 60 anos – não quer nem ouvir falar em saia que roda e tem um ataque se alguém lhe oferecer alguma coisa sexy. Tudo o que H. quer é realçar a cor dos olhos com a cor do vestido.
H., 87 anos – qualquer coisa que não a deixe parecida com a Hebe Camargo. Exemplo de referência negativa.
Outro exemplo de referências e escolhas: se eu tivesse me casado aos 5 anos, o auge do meu momento princesa, com certeza, o meu vestido seria igual ao da Lady Diana Spencer, com todas as saias e babados que tivesse direito; por sua vez, caso o fato tivesse se consumado aos 21, quando pretendia ser moderna e devota do minimalismo, não exitaria em copiar a limpeza e a simplicidade do vestido da Carolyn Bessette Kennedy (que não deixava de ser princesa, concordam?); princesises a parte, acho que, atualmente, só não me casaria de tomara-que-caia. Muito primeira década do século 21... E nem escolheria o destino trágico das minhas referências. Credo!
Mas, voltando ao que interessa, toda esse blá, blá, blá é só para embasar a estória da E., querida copeira aqui do escritório. A estória que ela acabou de me contar, com direito a fotos e tudo, lá na copinha.
Vamos lá. E. já morava com o marido há uns 15 anos e com ele tinha uma filha de 12. E. e o marido se amavam, se adoravam, se pegavam e se veneravam. Enfim, E. sempre foi bem casada, com exceção ao fato de que E. não era casada! Ou seja, E. ainda não tinha usado o tal do vestido, e nem podia responder “casada”, quando perguntavam sobre o seu estado civil, mas, isso, E. confessou, era o de menos. A questão era o modelão branco.
Pois bem, decidida a realizar o sonho e com a grana contadinha, E. concluiu que só conseguiria tudo o que queria se colocasse a mão na massa. Literalmente. Na véspera do grande dia, E. estava de bobs na cabeça, enrolando docinho e pondo salgadinho para assar. Foi dormir exausta, mas acordou radiante. Era o dia dela. Com o vestido dela. O dos sonhos. Aquele que ela tinha idealizado sei lá há quanto tempo. E dizia muito sobre o que ela queria ser. Ao menos naquele dia. Ao menos por algumas horas. E foi assim que E. escolheu ir de princesa, mas de princesa mesmo: com direito a tiara, luvas e saião. Porque E. era a princesa do dia. Era assim que ela se sentia. Era o que ela merecia ser.
Nas fotos, cabelo arrumado, vestido ajustado e maquiagem caprichada. O mais bonito de tudo? O sorriso: lindo e aberto. Sorriso de gente feliz, com a filha como dama de honra e o maridão apaixonado, olhando para ela com aquele olhar de quem ama. Para esse aí, tenho certeza que tanto fazia estar ou não enfiado naquela roupa de noivo. Ele já tinha a mulher que amava e com ela havia construído uma família. Mas, o que custava fazê-la um pouquinho mais feliz? O que custava permitir que ela sentisse o gostinho de princesa?
Agora, E. tem uma outra empreitada: o vestido de 15 anos da filha. E eu também! Preciso encontrar algo para usar como convidada nos próximos dois casamentos que me aguardam. Referências? Muitas! Tanto para mim, quanto para ela, porque é assim que a vida segue, os vestidos surgem e os sonhos também.



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Chorei com a história de E.! Amei!
ResponderExcluirEla é uma fofa, Rê! Também amei a estória dela.
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