Dez anos de São Paulo. Hoje.
A ela, que já me deu o melhor dos meus céus e o pior dos meus infernos, todo o meu amor e a minha gratidão.
Por ter me acolhido. Por ter me entendido. Por me fazer sentir em casa.
Em sua homenagem, pedacinhos de uma São Paulo retratados em um caderninho de capa preta, em dias de pernas para o ar, onde em algumas tardes entreguei-me à cidade, e a cidade entregou-se a mim:
Diversa - um pouco de tudo aqui se encontra
“Ver a cidade com outros olhos, em outras horas.
Visitar os lugares com a luz cor de sol da tarde.
Ver a vida nunca antes vista, enquanto estava trancada em um escritório, na frente de um computador.
E como há vida nessa cidade!
Fui tirar dinheiro no caixa eletrônico na esquina de casa e, no meio do caminho, encontrei uma drag queen imensa e ruiva, toda montada, fazendo gracinha para uma bebêzinha linda e rosada, acompanhada por uma senhorinha muito distinta, que sorria, amigavelmente, para a drag queen.
Procurei um táxi no ponto, e peguei como motorista o mesmo senhor que em outra corrida me contou ser ‘dançarino da noite’ e ‘amante carente’. Tudo isso para narrar a estória da namorada com mais de sessenta, que o havia trocado por outro.
Pensei em perguntar qual tinha sido o desfecho, mas achei melhor deixar quieto. Na nossa última conversa, ele me confidenciou que começou a desconfiar da traição quando a namorada passou a evitá-lo com a desculpa recorrente de que faria ‘papanicolau’ no dia seguinte. Fiquei com medo dos detalhes que poderia acrescentar ao enredo.
De qualquer forma, não nos faltou assunto. Enquanto percorríamos a 23 de Maio, ele ia me contando o que tinha e o que não tinha por aqueles caminhos, quando ele chegou em São Paulo, vindo do Ceará, há quarenta anos. Nordestino, como eu. Migrante, como eu. No fundo, não há tantas diferenças entre uma advogada que estuda moda e um motorista de táxi que dança pela noite. Somos todos um pouco parecidos. Essa cidade faz a gente assim.
E fomos lá, vencendo o trânsito, entrando e saindo de túnel, passando por elevados, até chegarmos no Terraço Itália.
Eu tomando sorvete e tirando fotos exóticas da minha pessoa, nem me dei conta quando o taxi parou. Talvez, atravessando os olhos pelo retrovisor, o motorista perguntasse: ‘Qual espécie de gente se fotografa em um táxi, enquanto toma sorvete?’ Tipo de gente em férias, na sua própria cidade. Era a única resposta que tinha.
E se é para conhecer São Paulo, que seja pelo alto! Terraço Itália, espere por mim.”
Imensa - uma coisa assim, que não tem mais fim
“Imensa, infinita e claustrofóbica. É clichê, mas é verdade: selva de pedras coberta por céu azul, imenso, infinito e libertador. Contrastes e coincidências, cenas de uma mesma cidade.
São Paulo em 360o. Blocos de concreto firmes diante do vento. Reconheço a Sé e o Copam. Reconheço a mim mesma e o granito que comigo já carrego. Lá em baixo, toda uma confusa vastidão. E um presente que só uma cidade muito grande pode conceder: a possibilidade de ser só mais uma e, ao mesmo tempo, ser eu mesma.
E a cidade é suja, feia, mal cuidada. São Paulo só se faz bonita para quem for capaz de descobrir os seus bem guardados encantos. Como os postes antigos, adornados ora com brasões da República, ora com flores. Não pode existir melhor lugar para se plantar um brasão.”
Cosmopolita - pedaços do mundo se batem por aqui
“Na agência de turismo situada na Av. São João, paro para conversar com a Sra. D. Delfina, assim como se deve chamar, respeitosamente, uma senhora, lá na sua Lisboa. Agora que tenho tempo, gosto de conversar com as pessoas. E descobrir os seus mundos.
Entre um cafezinho e outro, aprendi qual o pronome de tratamento usado para designar, correta e respeitosamente, uma senhora portuguesa, lá em Portugal; debati a beleza de nossa mal falada língua; ouvi a sua indignação pelo uso incorreto da próclise; bem como, o seu incômodo com a informalidade exacerbada da brasilidade, e a sua inegável satisfação, expressa por um sorriso no rosto, ao exaltar o coração grande e único desse povo que a acolheu.
Quando nos despedimos, ela me acompanhou até o elevador e me mostrou a plaquinha. Tá certa, D. Delfina, um inegável erro de próclise.
Já no elevador, um beijinho só, na lateral do rosto, à moda paulistana. D. Delfina também já é daqui, também já é informal, mesmo que ainda não tenha se dado conta.”
Poética - quando cruzo a Ipiranga com a Av. São João
“Sentar no Bar da Brahma, na poética esquina da Ipiranga com a São João. Pedir um choop no meio da tarde, ver a vida passar. Faço parte da poesia da cidade. Autêntica poesia de botequim.
Uma mulher, na mesa ao lado, acompanhada pelo marido, mastiga e me olha feio. Deve pensar: ‘Quem é essa louca, tomando chop sozinha e tirando foto dela mesma, enquanto faz cara de quem não quer ser fotografada?’
A louca sou eu! São Paulo é lugar de gente estranha e eu sou uma delas.”
Histórica - um passado e um presente com olhar de futuro
"Sala São Paulo, prédio da ferrovia Sorocabana. Entrada misturando o clássico com o moderno. Moderno nas lâminas de madeira cor de marfim, com ar do final dos anos 90, neo-clássico nas formas de setenta anos atrás.
Durante o passeio, uma verdadeira aula de história e arquitetura. As razões pelas quais é possível modular a altura do teto; a necessidade das cadeiras simularem a presença da plateia. Uma delicada caixa de som, montada ao lado de uma estação de metrô. Barulho? Só as notas de um violino. Do metrô, nenhum ruído.
Ferrovia criada para o café e pelo o café. Trilhos que contam a história de São Paulo e, como muito bem lembrado pelo historiador, não apenas carregavam grãos valiosos, mas bem de muito maior valor: gente, de todos os tipos e lugares, que construíram essa cidade e fizeram de São Paulo o que ela é.
Ao lado, vejo o antigo prédio da DOPS. Página de uma história triste. De longe, o belo prédio da Luz. Sigo até lá.”
Desigual - da Oscar Freire à Estação da Luz
“Nas ruas, ando desconfiada. É o centro do centro de uma das cidades mais perigosas do planeta. Por lá, praças imensas, avenidas espaçosas, estações de trem e metrô. Um descampado para onde não se quer correr.
Sujeira. Feiura. Gente, que o mundo Itaim-Jardins não está acostumado a ver. Sem falar naquele sobe e desce dos prédios de granito descascado, provavelmente condenados, cujas rachaduras expõem a intimidade dos seus moradores, seus hábitos e a cor das toalhas com que se enxugam. Grosseiros monumentos à pobreza de uma parte da cidade que se quer esquecer. Realidade. Não minha, mas de muitos e por mais tranqüila que seja a minha roupa, tem algo em mim que grita e que diz: ‘eu não pertenço’, como um elemento em um conjunto errado. Triste.
Vou me aproximando do meio da multidão e tento reconhecer caras amigáveis. É delas que me aproximo. Com elas me sinto segura. Se essa senhorinha pode andar por aqui, eu também posso.
Entro na Estação da Luz pelo mezanino de cima. Caótica e bela. Os prédios neo-clássicos de São Paulo são fora de contexto. Têm uma ar do que poderiam ter sido, mas nunca o foram.
Gosto da Luz, mas não gostaria de precisar subir e descer de um de seus metrôs, todos os dias.”
Culta - de um tudo aqui se aprende
“Museu da língua portuguesa. Melhor seria se o tivessem designado como memorial à língua portuguesa. É assim que o vejo.
Sou única no meio de um incontável número de excursões colegiais. De pequeninos.
Assisto o filminho sobre a língua portuguesa narrado pela Fernanda Montenegro e lagriminhas emocionadas rolam. Enxugo rapidinho. Ainda bem que está escuro. Após o filminho, somos levados para uma outra sala, também escura, com múltiplas projeções. São imagens dançando nas paredes, acompanhando o ritmo das palavras.
Palavras. Milhares delas. E como acabei de aprender com Fernando Pessoa: ‘Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma’.
No meio de tantas, descobri uma que não conhecia: alumbramento’, saída de um conto chamado ‘Evocações do Recife’, do meu Recife, de Manoel Bandeira.
Em casa, checo o Aurélio, o mesmo que ganhei juntamente com um Código de Processo Civil, como presente de formatura do escritório onde estagiava, alguns meses antes de vir para cá; segundo o Aurélio, ‘alumbramento’ é o mesmo que deslumbramento, maravilhamento, e cita como exemplo o mesmo trecho de Bandeira, talvez o único a se alumbrar.
Enxerguei mais uma alma. Tal qual Bandeira, também me alumbrei.”
Há dez anos essa cidade me alumbra!
Amiga ótimo. Consegui sentir um pouco de gosto de SP após seu texto descritivo. Animal você conseguir ver a beleza por traz disso tudo... coinscidentemente eu estava escreveno sobre minha situacao em Boston rs A Qual HA de MUDAR!!! rrsrs
ResponderExcluirBeijos
Menina, é um absurdo o tanto que você escreve bem! Que coisa mais linda de texto! Amei!
ResponderExcluirbeijo enorme